O álcool das bebidas alcoólicas é igual ao da farmácia?

Fermentação, destilação e implicações clínicas

O etanol é a substância psicoativa presente nas bebidas alcoólicas e também o principal componente do chamado “álcool etílico” utilizado em contexto farmacêutico e hospitalar. Apesar de partilharem a mesma fórmula química (C₂H₆O), o etanol destinado ao consumo humano difere do álcool utilizado na farmácia quanto ao grau de pureza, finalidade, processo de produção e enquadramento legal. Este artigo analisa as bases químicas do etanol, descreve os processos de fermentação e destilação que permitem a sua obtenção e discute as diferenças entre o etanol potável e o álcool etílico de uso externo, incluindo implicações toxicológicas e clínicas.

Introdução

O consumo de bebidas alcoólicas é uma prática culturalmente enraizada em diversas sociedades, incluindo em Portugal, onde vinho, cerveja e bebidas espirituosas ocupam lugar relevante na tradição gastronómica. Paralelamente, o álcool etílico é amplamente utilizado em contexto farmacêutico, hospitalar e doméstico como antisséptico e desinfetante.

A questão frequentemente colocada, “o álcool das bebidas alcoólicas é igual ao da farmácia?”, exige uma resposta diferenciada: do ponto de vista químico, trata-se da mesma molécula (etanol); do ponto de vista funcional, sanitário e legal, existem diferenças substanciais.

O que é o etanol?

O etanol (C₂H₆O), também designado álcool etílico, é um composto orgânico pertencente ao grupo dos álcoois. É uma substância volátil, inflamável, miscível em água e com propriedades psicoativas quando ingerida.

No organismo humano, o etanol atua como depressor do sistema nervoso central, sendo metabolizado principalmente no fígado através da ação da álcool desidrogenase, com formação de acetaldeído e, posteriormente, ácido acético.

Fermentação alcoólica

Conceito

A fermentação alcoólica é um processo biológico anaeróbio no qual microrganismos, sobretudo leveduras do género Saccharomyces, convertem açúcares em etanol e dióxido de carbono.

Reação simplificada

C6H12O62C2H5OH+2CO2C₆H₁₂O₆ → 2 C₂H₅OH + 2 CO₂

Ou seja, uma molécula de glicose origina duas moléculas de etanol e duas de dióxido de carbono.

Aplicação na produção de bebidas

A fermentação está na base da produção de:

  • Vinho (a partir de açúcares da uva)
  • Cerveja (a partir de cereais maltados)
  • Sidra (a partir de maçã), etc.

O teor alcoólico obtido exclusivamente por fermentação é limitado pela tolerância das leveduras ao etanol, situando-se habitualmente entre 8% e 15% (Vol.).

Destilação

Conceito

A destilação é um processo físico de separação baseado nas diferenças de ponto de ebulição entre substâncias. Como o etanol tem um ponto de ebulição (78,37 °C) inferior ao da água (100 °C), é possível concentrá-lo através do aquecimento controlado do líquido fermentado.

Aplicação nas bebidas espirituosas

Bebidas como aguardente, whisky, vodka ou gin resultam da destilação de um produto previamente fermentado. A destilação permite:

  • Aumentar a concentração de etanol
  • Remover impurezas voláteis indesejadas
  • Ajustar características organoléticas

O teor alcoólico pode atingir 40 -50% (Vol.) ou mais, dependendo do processo.

O álcool da farmácia

O chamado “álcool da farmácia” pode referir-se a diferentes produtos:

  1. Álcool etílico (etanol): geralmente a 70% (Vol.), utilizado como antisséptico.
  2. Álcool desnaturado: etanol ao qual são adicionadas substâncias tóxicas ou de sabor desagradável para impedir o consumo humano.
  3. Álcool isopropílico (isopropanol); quimicamente distinto do etanol e não apto para ingestão.

O álcool etílico utilizado em contexto farmacêutico pode ter origem industrial (fermentação seguida de destilação e retificação) ou síntese química. No entanto, frequentemente é desnaturado, tornando-se impróprio para consumo.

São quimicamente iguais?

Se compararmos:

  • Etanol puro de grau alimentar
  • Etanol puro de grau farmacêutico

A molécula é exatamente a mesma.

Contudo, as diferenças residem em:

  • Grau de pureza
  • Presença de desnaturantes
  • Controlo sanitário específico para ingestão
  • Enquadramento fiscal e legal

O álcool desnaturado contém aditivos (por exemplo, metanol, denatónio ou outros agentes amargos) que o tornam tóxico e impróprio para consumo humano.

Implicações toxicológicas e clínicas

A ingestão de álcool desnaturado ou de álcool não destinado ao consumo pode provocar:

  • Intoxicação grave
  • Acidose metabólica
  • Lesão hepática
  • Alterações neurológicas
  • Risco de morte

Importa distinguir que:

  • O risco associado ao consumo de bebidas alcoólicas decorre do etanol enquanto substância psicoativa.
  • O risco associado ao consumo de álcool de farmácia pode incluir toxicidade adicional devido a contaminantes ou desnaturantes.

Do ponto de vista clínico, o etanol, independentemente da sua origem, atua como depressor do sistema nervoso central, podendo originar dependência, tolerância e síndrome de abstinência.

Conclusão

O álcool presente nas bebidas alcoólicas e o álcool etílico utilizado na farmácia são, do ponto de vista molecular, a mesma substância: etanol. No entanto, diferem quanto à finalidade, pureza, controlo de qualidade e, frequentemente, composição final.

A fermentação é o processo biológico que origina o etanol a partir de açúcares, enquanto a destilação permite a sua concentração e purificação. O álcool destinado a uso farmacêutico pode ser desnaturado, tornando-se impróprio e perigoso para consumo.

A compreensão destas diferenças é fundamental não apenas em termos científicos, mas também na educação para a saúde e na prevenção de comportamentos de risco relacionados com o consumo de substâncias alcoólicas.

Referências Bibliográficas

  1. World Health Organization. Global status report on alcohol and health 2018. Geneva: WHO; 2018.
  2. World Health Organization. Global status report on alcohol and health 2023. Geneva: WHO; 2023.
  3. Rehm J, Anderson P, Manthey J, Shield KD, Struzzo P, Wojnar M, et al. Alcohol use disorders in primary health care: what do we know and where do we go? Alcohol Alcohol. 2016;51(4):422–427.
  4. National Institute on Alcohol Abuse and Alcoholism. Alcohol metabolism: An update. Bethesda (MD): NIAAA; 2021.
  5. Vale JA, Meredith TJ. Acute poisoning due to alcohols and glycols. In: Oxford Textbook of Medicine. 6th ed. Oxford: Oxford University Press; 2020.
  6. European Medicines Agency. Ethanol in medicinal products: Guidance on the information for the package leaflet. London: EMA; 2019.
  7. Direção-Geral da Saúde. Programa Nacional para a Prevenção e Controlo do Tabagismo e Álcool. Lisboa: Direção-Geral da Saúde; 2017.

Artigo Anterior

Artigo Seguinte

A carregar próximo artigo...
Seguir-nos
Pesquisar
Carregando

Signing-in 3 seconds...