
A recaída constitui um dos principais desafios no tratamento da dependência do álcool. Este artigo aborda estratégias de prevenção da recaída, com ênfase na gestão de pensamentos e do desejo (craving) de consumir. Apoiado em modelos cognitivo-comportamentais, explora-se a importância do reconhecimento precoce de sinais de alerta, da reestruturação cognitiva e de técnicas de controlo do desejo, propondo intervenções eficazes no contexto clínico.
A dependência do álcool é uma condição crónica e recorrente que exige intervenções multidimensionais para alcançar a abstinência sustentada. Apesar dos avanços no tratamento, a taxa de recaída continua elevada, estimando-se que entre 40% a 60% dos indivíduos recaiam nos primeiros seis meses após o tratamento (Marlatt & Donovan, 2005). A prevenção da recaída, portanto, assume um papel central na prática clínica.
Este artigo foca-se na prevenção da recaída através da gestão eficaz dos pensamentos automáticos e do desejo de consumir, aspetos frequentemente subvalorizados, mas fundamentais para a manutenção da abstinência.
O modelo de prevenção da recaída de Marlatt e Gordon (1985) conceptualiza a recaída como um processo dinâmico, não um evento isolado. Distingue entre lapsos/deslizes (consumo isolado) e recaídas completas (retorno ao padrão anterior de uso), salientando a importância da autoeficácia, das respostas de coping e da interpretação cognitiva do consumo.
No centro deste modelo está o craving, definido como um desejo intenso de consumir álcool, e os pensamentos automáticos associados, que frequentemente surgem em resposta a estímulos internos (emoções, pensamentos) ou externos (ambiente, pessoas).
O desejo de consumir está intimamente ligado a mecanismos neurobiológicos e psicológicos. Segundo Tiffany (1990), o craving emerge quando as rotinas automáticas associadas ao uso são interrompidas, tornando-se conscientes e criando conflito cognitivo. Este processo é agravado por pensamentos automáticos disfuncionais como “só um copo não faz mal” ou “não consigo lidar com isto sem beber”.
A identificação e modificação desses pensamentos são essenciais para evitar a recaída.
O desejo de consumir não é constante. Quando surge, atinge um pico e depois decresce, tal como uma onda no mar. Esse padrão temporal é importante porque mostra que o desejo, por mais intenso que seja, é transitório.
Características da Onda do Desejo:

Segundo Marlatt (2005), a maioria dos episódios de craving dura entre 20 a 30 minutos, desde que o utente não a alimente com pensamentos permissivos ou se exponha a estimulos continuamente.
1. SURFAR A ONDA – Técnica “Urge Surfing”
Imagina que o desejo é uma onda grande. Em vez de tentares lutar contra ela, podes “surfar”, deixar que ela venha e vá, sem te deixares levar.
Como fazer:
2. Usa a Técnica dos 3 D’s
Delay (Atrasar) – Espera 10 minutos. O desejo vai acalmar. Vai passar.
Distract (Distrair) – Faz algo diferente! Algumas ideias:
Decide (Decidir com clareza) – Pensa: “O que é mais importante para mim agora?”
Volta a lembrar-te dos teus objetivos.
Todos os dias, tira 5 minutos para refletir:
| Situação | O que senti | O que pensei | O que fiz em vez de beber | Resultado |
| Discussão com colega | Ansiedade | “Preciso de um copo” | Fui dar uma caminhada | Desejo passou |
| Estava sozinho em casa | Tédio | “Beber ia animar-me” | Liguei a um amigo | Senti-me melhor |
Leva este diário contigo. Vai ajudar-te a ver o teu progresso!
Faz uma lista com:
Guarda este “Plano” na carteira ou telemóvel.
Pessoas a quem posso ligar:
Atividades alternativas: