Gestão de Pensamentos e do Desejo de Consumo

al-kuhlogiaal-kuhlogiaPrevenção da Recaída25 de Junho, 2025509 Visualizações

A recaída constitui um dos principais desafios no tratamento da dependência do álcool. Este artigo aborda estratégias de prevenção da recaída, com ênfase na gestão de pensamentos e do desejo (craving) de consumir. Apoiado em modelos cognitivo-comportamentais, explora-se a importância do reconhecimento precoce de sinais de alerta, da reestruturação cognitiva e de técnicas de controlo do desejo, propondo intervenções eficazes no contexto clínico.

Introdução

A dependência do álcool é uma condição crónica e recorrente que exige intervenções multidimensionais para alcançar a abstinência sustentada. Apesar dos avanços no tratamento, a taxa de recaída continua elevada, estimando-se que entre 40% a 60% dos indivíduos recaiam nos primeiros seis meses após o tratamento (Marlatt & Donovan, 2005). A prevenção da recaída, portanto, assume um papel central na prática clínica.

Este artigo foca-se na prevenção da recaída através da gestão eficaz dos pensamentos automáticos e do desejo de consumir, aspetos frequentemente subvalorizados, mas fundamentais para a manutenção da abstinência.

O Modelo de Prevenção da Recaída

O modelo de prevenção da recaída de Marlatt e Gordon (1985) conceptualiza a recaída como um processo dinâmico, não um evento isolado. Distingue entre lapsos/deslizes (consumo isolado) e recaídas completas (retorno ao padrão anterior de uso), salientando a importância da autoeficácia, das respostas de coping e da interpretação cognitiva do consumo.

No centro deste modelo está o craving, definido como um desejo intenso de consumir álcool, e os pensamentos automáticos associados, que frequentemente surgem em resposta a estímulos internos (emoções, pensamentos) ou externos (ambiente, pessoas).

Craving e Pensamentos Automáticos

O desejo de consumir está intimamente ligado a mecanismos neurobiológicos e psicológicos. Segundo Tiffany (1990), o craving emerge quando as rotinas automáticas associadas ao uso são interrompidas, tornando-se conscientes e criando conflito cognitivo. Este processo é agravado por pensamentos automáticos disfuncionais como “só um copo não faz mal” ou “não consigo lidar com isto sem beber”.

A identificação e modificação desses pensamentos são essenciais para evitar a recaída.

O desejo de consumir não é constante. Quando surge, atinge um pico e depois decresce, tal como uma onda no mar. Esse padrão temporal é importante porque mostra que o desejo, por mais intenso que seja, é transitório.

Características da Onda do Desejo:

  1. Início: Surge em resposta a um estimulo (interno ou externo). Ex: stress, ansiedade, cheiros, locais ou pessoas associadas ao consumo.
  2. Subida: Aumenta em intensidade. Pode incluir pensamentos como “não vou aguentar” ou sensações físicas como tensão muscular ou sudorese.
  3. Pico: O momento de maior desconforto. Aqui, o risco de ceder é elevado.
  4. Descida: Naturalmente, a intensidade do desejo diminui, mesmo sem consumo.

Segundo Marlatt (2005), a maioria dos episódios de craving dura entre 20 a 30 minutos, desde que o utente não a alimente com pensamentos permissivos ou se exponha a estimulos continuamente.

O que Podes Fazer Quando a Onda Aparece?

1. SURFAR A ONDA – Técnica “Urge Surfing”

Imagina que o desejo é uma onda grande. Em vez de tentares lutar contra ela, podes “surfar”, deixar que ela venha e vá, sem te deixares levar.

Como fazer:

  • Respira fundo. Sente o ar a entrar e a sair.
  • Observa o desejo como se fosse uma nuvem a passar no céu.
  • Diz a ti próprio:
    • “Estou a ter um desejo, mas ele vai passar.”
    • “Posso observar sem agir.”

2. Usa a Técnica dos 3 D’s

Delay (Atrasar) – Espera 10 minutos. O desejo vai acalmar. Vai passar.

Distract (Distrair) – Faz algo diferente! Algumas ideias:

  • Caminhar ou fazer um desporto
  • Ligar a alguém
  • Tomar um duche
  • Ver um vídeo que te faça rir
  • Mastigar pastilha elástica
  • Beber 2 ou três copos de água
  • Fazer flexões, correr no lugar, lavar os dentes
  • Ocupar o tempo

Decide (Decidir com clareza) – Pensa: “O que é mais importante para mim agora?”
Volta a lembrar-te dos teus objetivos.

Exercício Diário: Diário da Onda

Todos os dias, tira 5 minutos para refletir:

SituaçãoO que sentiO que penseiO que fiz em vez de beberResultado
Discussão com colegaAnsiedade“Preciso de um copo”Fui dar uma caminhadaDesejo passou
Estava sozinho em casaTédio“Beber ia animar-me”Liguei a um amigoSenti-me melhor

Leva este diário contigo. Vai ajudar-te a ver o teu progresso!

Plano de Emergência contra o Desejo

Faz uma lista com:

  • Três pessoas que posso contactar
  • Três atividades que me distraem
  • Três frases que me motivam:
    • “Já venci antes, posso vencer de novo.”
    • “Beber não vai resolver nada, só piorar.”
    • “Só por hoje, escolho cuidar de mim.”

Guarda este “Plano” na carteira ou telemóvel.

Conclusão

  • O desejo de consumir é normal, não é sinal de fracasso.
  • Tu tens ferramentas para enfrentá-lo.
  • Com prática e apoio, a vontade de beber perde força.
  • O desejo pode parecer forte, mas não dura para sempre. Cada vez que resistes, ficas mais forte.
  • Liga a um amigo ou pede ajuda. Falar é tirar-lhe o poder.

Exercício Prático

Gestão da Onda do Desejo

Como me sinto agora?

Quais os pensamentos que estou a ter?

O que posso fazer em vez de beber?

Frases que me ajudam

Resumo do Momento

Plano de Emergência

Pessoas a quem posso ligar:

Atividades alternativas:


Referências Bibliográficas

  1. Beck, J. S., Wright, F. D., Newman, C. F., & Liese, B. S. (1993). Cognitive Therapy of Substance Abuse. Guilford Press.
  2. Bowen, S., Chawla, N., & Marlatt, G. A. (2014). Mindfulness-Based Relapse Prevention for Addictive Behaviors: A Clinician’s Guide. Guilford Press.
  3. Marlatt, G. A., & Donovan, D. M. (Eds.). (2005). Relapse Prevention: Maintenance Strategies in the Treatment of Addictive Behaviors (2nd ed.). Guilford Press.
  4. Marlatt, G. A., & Gordon, J. R. (1985). Relapse Prevention: Maintenance Strategies in the Treatment of Addictive Behaviors. Guilford Press.
  5. Tiffany, S. T. (1990). A cognitive model of drug urges and drug-use behavior: Role of automatic and nonautomatic processes. Psychological Review, 97(2), 147–168.
  6. Witkiewitz, K., Bowen, S., Douglas, H., & Hsu, S. H. (2014). Mindfulness-based relapse prevention for substance craving. Addictive Behaviors, 39(2), 492–497.

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