Cozinhar com Álcool: Riscos para Utentes em Recuperação

al-kuhlogiaal-kuhlogiaPrevenção da RecaídaÁlcool! Problema?13 de Abril, 2025507 Visualizações

É comum encontrarmos receitas tradicionais que incluem bebidas alcoólicas na confeção: vinho no estufado, cerveja no molho, ou até aguardente em sobremesas flamejadas. Mas será que cozinhar com álcool é totalmente seguro? E o que acontece quando este tipo de alimentação é oferecido a pessoas em recuperação de uma dependência de álcool?

Neste artigo explicamos por que razão a utilização de álcool na cozinha pode representar um risco real de recaída, mesmo quando o álcool é sujeito a calor durante o processo de confeção.

Álcool “evapora” na cozedura? Nem sempre!

Existe a crença comum de que o álcool “desaparece” quando é cozinhado. Embora o calor possa reduzir a quantidade de etanol presente nos alimentos, estudos mostram que nem sempre o álcool é totalmente eliminado.

Por exemplo:

  • Flambar um prato pode manter até 75% do álcool original;
  • Cozinhar ao forno por 30 minutos pode deixar cerca de 35%;
  • Só após cozeduras prolongadas (mais de 2 horas) é que os níveis baixam significativamente, mas nunca chegam a zero.

Fonte: Augustin et al., 1992, Journal of the American Dietetic Association

Por que é isto um problema para pessoas em recuperação?

A recuperação de uma dependência do álcool é um processo complexo, que envolve abstinência total, reestruturação de hábitos e muita vigilância emocional. Mesmo pequenas quantidades de álcool, sobretudo se consumidas inadvertidamente, podem desencadear:

  • Reações físicas e emocionais
  • Interações negativas com medicação prescrita
  • Desejo intenso de consumir (craving)
  • Sentimentos de culpa ou falha
  • Desestabilização do processo terapêutico
  • Deslizes/lapsos e mesmo recaídas

Além disso, o cheiro e o sabor do álcool num prato podem ativar memórias associadas ao consumo, afetando negativamente o controlo emocional do paciente.

Exposição acidental: uma preocupação real

Muitas vezes, familiares, cuidadores ou cozinheiros não têm consciência do impacto que a comida confecionada com álcool pode ter. Preparar um prato com vinho “só para dar sabor” pode ser, para quem está em tratamento, o equivalente a dar um passo atrás na sua recuperação.

Por isso, é essencial:

  • Ler os rótulos dos alimentos com atenção (alguns molhos, sobremesas ou marinadas industrializadas contêm álcool)
  • Evitar receitas que levem qualquer tipo de bebida alcoólica
  • Utilizar substitutos, como caldos, sumo de uva ou especiarias
  • Informar familiares, amigos e instituições (lares, escolas, restaurantes)

O que recomendam os especialistas?

De acordo com o SICAD (Serviço de Intervenção nos Comportamentos Aditivos e nas Dependências), qualquer forma de exposição ao álcool deve ser evitada durante a recuperação, mesmo em contexto culinário.

Além disso, profissionais de saúde recomendam que os pacientes:

  • Adotem uma alimentação livre de álcool, mesmo na confeção
  • Tenham atenção a cheiros e sabores que possa atuar como desencadeadores
  • Incluam estas dúvidas e questões nas suas consultas de acompanhamento

Conclusão

A confeção de alimentos com álcool pode parecer inofensiva, mas para quem está em tratamento de dependência alcoólica, pode representar um estimulo desencadiador perigoso para recaídas. É fundamental criar um ambiente seguro, tanto em casa como em instituições, promovendo refeições saborosas e totalmente livres de álcool.

A recuperação merece todos os cuidados, inclusive à mesa.

Referências Bibliográficas

  1. Augustin, J., Augustin, E., Cutrufelli, R., Hagen, S., Teitzel, C. (1992). Alcohol retention in food preparation. Journal of the American Dietetic Association, 92(4), 486–488.
  2. Koob, G. F., & Volkow, N. D. (2010). Neurocircuitry of addiction. Neuropsychopharmacology, 35(1), 217–238.
  3. Mendes, A., Lobo, A., & Ferreira, A. M. (2016). Intervenção psicossocial na recuperação da dependência alcoólica. Revista Portuguesa de Psicologia da Saúde, 24, 85–101.
  4. Serviço de Intervenção nos Comportamentos Aditivos e nas Dependências (SICAD). (2020). Guia de boas práticas no tratamento de pessoas com dependência de álcool. Lisboa: Ministério da Saúde. Disponível em: https://www.sicad.pt
  5. Monteiro, M., & Ramos, J. (2019). A abstinência alcoólica: implicações clínicas e desafios. Acta Médica Portuguesa, 32(5), 312–318.
  6. Mateus, D. (2009). Avaliação da retenção de álcool em refeições e produtos alimentares industrializados preparados com bebidas alcoólicas. Faculdade de Ciências da Nutrição e da Alimentação da Universidade do Porto.

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